Não é vaidade, Nelson, não é.
Querias tanto as flores em vida, estou aqui, oferendo-te. Apesar de já te chamares saudade há mais de 20 anos, não morres, nem morrerás, fazes parte dos imortais, aqueles que vivem para sempre na mente e no coração daqueles que sabem sentir.
São tantos aqueles que são chamados de poeta em vão, somente por escreverem de forma rebuscada, procurarem palavras para sua obra que o povo não conhece. Julgam-se e dizem-se intelectuais. Mal sabem eles que a sabedoria maior está na rua. Desconhecem eles o vasto aprendizado que só o botequim pode proporcionar.
A simplicidade sempre foi teu ponto mais forte. Escrevia de forma clara, mensagens francas e destemidas. Politicamente correto é hipocrisia. Deixaste sempre essa faceta para os fingidos intelectuais. Bebeste demais, foste o rei das calçadas, o poeta dos cabelos cor de prata, a cigarra noturna. Títulos sem importância. Importante mesmo foi tua obra. Uma obra de verdade. Tocaste um violão jamais visto, nunca aparecerá nada igual. Compuseste para grandes intérpretes da música brasileira, mas isso representa tão pouco da tua obra. Grande parte permanece desconhecida. Melhor assim. Deixa para quem realmente se importa. Muitos são os feras...
Mangueirense diferente, amava, mas não se aproximava muito. Pobre no bolso, rico na imaginação. Fúnebre, triste, amargurado. Quem se importa? A tristeza é muito mais bonita do que a felicidade. Música alegre não é bonita, é simplesmente alegre. E sabias disso melhor que qualquer um. Cantaste a tristeza como nenhum outro. Quando resolveu falar de felicidade, precisou apenas de míseros 6 versos para organizar uma festa e mostrar que a felicidade pode sim ser bonita. É que os outros, os ditos intelectuais, não sabem fazer isso acontecer.
Deixo aqui minha gratidão, minha eterna gratidão, pelas mil serenatas que embalaste com teu violão, sempre colado ao teu peito tão amargurado. Nunca presenciei uma, não preciso. Mais uma vez, é melhor assim. Deixa que a imaginação trabalhe.
Um brinde ao centenário de Nelson Antônio da Silva, o Nelson Cavaquinho.
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sexta-feira, 28 de outubro de 2011
sábado, 2 de julho de 2011
A Banalização do Samba
O termo samba hoje é que nem "coisa", serve para caracterizar todo e qualquer som oriundo de um grupo de pessoas tocando cavaquinho, pandeiro e outros instrumentos mais.
Qualquer grupo de pagode dos mais xexelentos acopla o termo samba ao seu nome, tem até grupo de axé colocando samba no nome. Talvez isso seja resultado da proliferação quase que em escala de mitose que existe entre esses grupos. Sendo assim, fica muito difícil achar um nome decente, então eles seguem com um nome indecente mesmo.
Mas o que é o samba? Qual diferença entre samba e pagode? Onde fica o limite entre o samba e o pagode?
A resposta é simples. Se você conhece o samba e a sua história, suas glórias e seus compositores, suas lutas, seu fundamento e seus intérpretes, samba e pagode são a mesma coisa. Se você não conhece nada disso e acha que a Beth Carvalho é a madrinha do samba e é o máximo de "raiz" que você consegue chegar, então, pra você, tem muita diferença entre samba e pagode.
Quem abrir o dicionário em busca do significado real de pagode irá encontrar algo do gênero: farra, divertimento, reunião musical, etc. Ou seja, qualquer reunião onde haja música e alegria é pagode, seja ela uma reunião de samba, jazz, rock ou sertanejo - é pagode!
Quem abrir o dicionário em busca do significado de samba irá encontrar coisas como: dança africana comum no Brasil, ritmo musical e cultural brasileiro, etc. Ou seja, tem história, não brotou hoje no rádio (aliás, no rádio é quem não tem mesmo hoje em dia), tem tradição, é cultura.
Resumindo, eu posso chamar uma roda de samba de pagode, mas você que não entende lhufas disso, não. Você não pode! Você tem a obrigação de chamar de roda de samba. Nada de sambinha, isso é coisa de Zona Sul e Lapa. É samba!
Mas tome cuidado! O contrário não é válido. Uma roda de pagode não pode ser chamada de roda de samba, isso é um pecado crucial, cometido por muitos. Mas como saber? Realmente é muito subjetivo, quem conhece sabe diferenciar facilmente, mas quem não conhece acaba sendo enganado pelos falsários.
Um técnica infalível é olhar para os instrumentos musicais. Tem banjo, reco-reco de metal ou repique de mão? É pagode! Perigo! Sai fora daí! Tem tantã, pandeiro de nylon e chocalho de ovinho? Sinal amarelo, preste atenção! Isso pode ser apenas um desavisado com um instrumento errado dentro de uma roda de samba. Esse sujeito pode te assolar a noite inteira.
Outra técnica infalível é a vestimenta dos músicos. Calças rasgadas, gel no cabelo, uniforme igualzinho? Fuja! Chapéu Panamá? Idem ao sujeito do chocalho do ovinho. Tome muito cuidado com esse sujeito. O que acontece em 95% dos casos é que esse cara não sabe nada de samba, mas finge ser sambista desde criança. Se perguntar quem foi Noel Rosa pra ele é capaz dele achar que é só um túnel em Vila Isabel... nos outros 5% dos casos, esse cara pode ser um malandro de verdade e muito respeitado. Por isso, analise bem.
Começou a tocar o samba. A primeira música é do Cartola. Opa! Bom começo. Mas cuidado, não se engane. A próxima pode ser do Negritude Júnior. Não, eu não estou exagerando. Presenciei exatamente isso ontem na Lapa. Onde mais poderia acontecer tamanha atrocidade? Coitado do Angenor...
Portanto, se você quer conhecer o samba, procure alguém que conheça. Não entre em "sambas" sozinho. É perigoso. Você pode comprar gato por lebre e sair achando que Fundo de Quintal é samba. Tem muito impostor por aí.
Dicas certas são procurar por rodas lideradas por Teresa Cristina, Alfredo Del Penho, Pedro Miranda, Pedro Amorim, Pedro Paulo Malta e alguns outros. O Trapiche Gamboa é ótima pedida e o Samba da Ouvidor é a melhor roda de samba do Rio de Janeiro. Mas, por favor, só vá ao Samba da Ouvidor se você quiser realmente escutar o samba e entender mais sobre ele. Não vá só pra beber e fazer uma "pré night". Seja consciente e deixe quem gosta de samba apreciar o samba. Não atrapalhe o programa dos outros.
Um beijo revoltado,
Guilherme Bieler
Qualquer grupo de pagode dos mais xexelentos acopla o termo samba ao seu nome, tem até grupo de axé colocando samba no nome. Talvez isso seja resultado da proliferação quase que em escala de mitose que existe entre esses grupos. Sendo assim, fica muito difícil achar um nome decente, então eles seguem com um nome indecente mesmo.
Mas o que é o samba? Qual diferença entre samba e pagode? Onde fica o limite entre o samba e o pagode?
A resposta é simples. Se você conhece o samba e a sua história, suas glórias e seus compositores, suas lutas, seu fundamento e seus intérpretes, samba e pagode são a mesma coisa. Se você não conhece nada disso e acha que a Beth Carvalho é a madrinha do samba e é o máximo de "raiz" que você consegue chegar, então, pra você, tem muita diferença entre samba e pagode.
Quem abrir o dicionário em busca do significado real de pagode irá encontrar algo do gênero: farra, divertimento, reunião musical, etc. Ou seja, qualquer reunião onde haja música e alegria é pagode, seja ela uma reunião de samba, jazz, rock ou sertanejo - é pagode!
Quem abrir o dicionário em busca do significado de samba irá encontrar coisas como: dança africana comum no Brasil, ritmo musical e cultural brasileiro, etc. Ou seja, tem história, não brotou hoje no rádio (aliás, no rádio é quem não tem mesmo hoje em dia), tem tradição, é cultura.
Resumindo, eu posso chamar uma roda de samba de pagode, mas você que não entende lhufas disso, não. Você não pode! Você tem a obrigação de chamar de roda de samba. Nada de sambinha, isso é coisa de Zona Sul e Lapa. É samba!
Mas tome cuidado! O contrário não é válido. Uma roda de pagode não pode ser chamada de roda de samba, isso é um pecado crucial, cometido por muitos. Mas como saber? Realmente é muito subjetivo, quem conhece sabe diferenciar facilmente, mas quem não conhece acaba sendo enganado pelos falsários.
Um técnica infalível é olhar para os instrumentos musicais. Tem banjo, reco-reco de metal ou repique de mão? É pagode! Perigo! Sai fora daí! Tem tantã, pandeiro de nylon e chocalho de ovinho? Sinal amarelo, preste atenção! Isso pode ser apenas um desavisado com um instrumento errado dentro de uma roda de samba. Esse sujeito pode te assolar a noite inteira.
Outra técnica infalível é a vestimenta dos músicos. Calças rasgadas, gel no cabelo, uniforme igualzinho? Fuja! Chapéu Panamá? Idem ao sujeito do chocalho do ovinho. Tome muito cuidado com esse sujeito. O que acontece em 95% dos casos é que esse cara não sabe nada de samba, mas finge ser sambista desde criança. Se perguntar quem foi Noel Rosa pra ele é capaz dele achar que é só um túnel em Vila Isabel... nos outros 5% dos casos, esse cara pode ser um malandro de verdade e muito respeitado. Por isso, analise bem.
Começou a tocar o samba. A primeira música é do Cartola. Opa! Bom começo. Mas cuidado, não se engane. A próxima pode ser do Negritude Júnior. Não, eu não estou exagerando. Presenciei exatamente isso ontem na Lapa. Onde mais poderia acontecer tamanha atrocidade? Coitado do Angenor...
Portanto, se você quer conhecer o samba, procure alguém que conheça. Não entre em "sambas" sozinho. É perigoso. Você pode comprar gato por lebre e sair achando que Fundo de Quintal é samba. Tem muito impostor por aí.
Dicas certas são procurar por rodas lideradas por Teresa Cristina, Alfredo Del Penho, Pedro Miranda, Pedro Amorim, Pedro Paulo Malta e alguns outros. O Trapiche Gamboa é ótima pedida e o Samba da Ouvidor é a melhor roda de samba do Rio de Janeiro. Mas, por favor, só vá ao Samba da Ouvidor se você quiser realmente escutar o samba e entender mais sobre ele. Não vá só pra beber e fazer uma "pré night". Seja consciente e deixe quem gosta de samba apreciar o samba. Não atrapalhe o programa dos outros.
Um beijo revoltado,
Guilherme Bieler
sábado, 23 de abril de 2011
Sua Santidade Pixinguinha
Queridos (poucos) leitores, peço desculpas pela "escapada". Pela ordem, essa postagem deveria ser sobre tênis, já que a primeira foi sobre cervejas e a segunda sobre samba. Porém esta será uma postagem extraordinária. Prometo que dificilmente sairei da ordem, como hoje.
O motivo dessa "escapada" de roteiro se chama Alfredo da Rocha Viana Filho, aniversariante do dia 23 de abril (assim como meu querido irmão Breno Scorza). Nascido em 1897, o vulgo Pixinguinha estaria hoje completando 114 anos. Não é por acaso que o Dia Nacional do Choro é comemorado em 23 de abril.
Flautista, saxofonista, compositor e um dos maiores arranjadores brasileiros. Integrou conjuntos famosos e importantes da primeira metade do século XX, como o Caxangá, os Oito Batutas e o Regional Benedito Lacerda. Criou arranjos avançados e inovadores para intérpretes de peso, como Mário Reis e Chico Alves. Compôs choros imortalizados, como Carinhoso, Um a Zero, Lamentos, Naquele Tempo, Sofres porque queres.
Pixinguinha elevou a música popular brasileira a um nível de erudição quase que inimaginável. Improviso, arte, técnica, tudo junto. Seu nome ficará gravado para sempre no espaço dos "sobre humanos", aqueles que fazem acontecer o que parece ser impossível.
No link abaixo segue vídeo onde Pixinguinha é acompanhado por Benedito Lacerda, João da Baiana, Donga, Bide e outros. Relíquia sagrada.
http://www.youtube.com/watch?v=wrmR82_CnEA&feature=share
Vinicius de Moraes, com sua inteligência tamanha, sabe do que fala: "...Pixinguinha, eu acho que é o próprio Deus em pessoa. Pixinguinha é um santo. Se houvesse uma igreja brasileira, creio que Pixinga seria canonizado em vida."
Parabéns, grande mestre do choro. A música do povo agradece pelo toque divino.
O motivo dessa "escapada" de roteiro se chama Alfredo da Rocha Viana Filho, aniversariante do dia 23 de abril (assim como meu querido irmão Breno Scorza). Nascido em 1897, o vulgo Pixinguinha estaria hoje completando 114 anos. Não é por acaso que o Dia Nacional do Choro é comemorado em 23 de abril.
Flautista, saxofonista, compositor e um dos maiores arranjadores brasileiros. Integrou conjuntos famosos e importantes da primeira metade do século XX, como o Caxangá, os Oito Batutas e o Regional Benedito Lacerda. Criou arranjos avançados e inovadores para intérpretes de peso, como Mário Reis e Chico Alves. Compôs choros imortalizados, como Carinhoso, Um a Zero, Lamentos, Naquele Tempo, Sofres porque queres.
Pixinguinha elevou a música popular brasileira a um nível de erudição quase que inimaginável. Improviso, arte, técnica, tudo junto. Seu nome ficará gravado para sempre no espaço dos "sobre humanos", aqueles que fazem acontecer o que parece ser impossível.
No link abaixo segue vídeo onde Pixinguinha é acompanhado por Benedito Lacerda, João da Baiana, Donga, Bide e outros. Relíquia sagrada.
http://www.youtube.com/watch?v=wrmR82_CnEA&feature=share
Vinicius de Moraes, com sua inteligência tamanha, sabe do que fala: "...Pixinguinha, eu acho que é o próprio Deus em pessoa. Pixinguinha é um santo. Se houvesse uma igreja brasileira, creio que Pixinga seria canonizado em vida."
Parabéns, grande mestre do choro. A música do povo agradece pelo toque divino.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Cartola e o Feriado na Roça
Aqui segue minha primeira postagem sobre samba... haja responsabilidade! Pra começar: Cartola!
Quando se fala em Angenor de Oliveira, o Cartola, pensa-se no lado carnavalesco ou então no lado harmonioso e melodioso dele. Não é para menos.
Cartola foi um dos fundadores de uma das mais importantes e tradicionais agremiações do carnaval carioca, a Estação Primeira de Mangueira, em 1928. Para a Mangueira Cartola dedicou boa parte de sua vida, compondo sambas de terreiro e sambas de enredo. Foi campeão com a verde e rosa por várias oportunidades.
Cartola também compôs sambas antológicos, lembrados até hoje, os quais o configuram como um dos maiores sambistas que já existiram. Em minha humilde opinião, o 2º maior.
Mas não estou aqui para falar do que é conhecido no Cartola, mas sim do que é surpreendente nele.
Poucos foram aqueles que conseguiram fazer arrepiar tanto quanto Cartola. Jogar emoções numa música com tanta simplicidade, sutileza e verdade não é pra qualquer um. E é nesse sentido que escrevo sobre a música "Feriado na Roça", para mim uma das mais bonitas dele. O mais incrível é que é uma canção, não é um samba.
Cartola conseguiu colocar numa mesma música uma série de sentimentos, sempre com a mesma voz calma. Seguem-se surpresa, felicidade, ansiedade, decepção, tristeza, ódio, insanidade e indiferença, nessa ordem. Tudo isso em breves 2 minutos e 35 segundos. Para ouvirem e constatarem, segue o link abaixo. É só procurar a música Feriado na Roça e clicar para escutar (é a 3ª música da lista).
http://www.radio.uol.com.br/#/artista/cartola/1784
É por músicas como esta que Cartola foi um ser incomparável. Beleza sublime. O resto é cópia, das mal feitas!
Quando se fala em Angenor de Oliveira, o Cartola, pensa-se no lado carnavalesco ou então no lado harmonioso e melodioso dele. Não é para menos.
Cartola foi um dos fundadores de uma das mais importantes e tradicionais agremiações do carnaval carioca, a Estação Primeira de Mangueira, em 1928. Para a Mangueira Cartola dedicou boa parte de sua vida, compondo sambas de terreiro e sambas de enredo. Foi campeão com a verde e rosa por várias oportunidades.
Cartola também compôs sambas antológicos, lembrados até hoje, os quais o configuram como um dos maiores sambistas que já existiram. Em minha humilde opinião, o 2º maior.
Mas não estou aqui para falar do que é conhecido no Cartola, mas sim do que é surpreendente nele.
Poucos foram aqueles que conseguiram fazer arrepiar tanto quanto Cartola. Jogar emoções numa música com tanta simplicidade, sutileza e verdade não é pra qualquer um. E é nesse sentido que escrevo sobre a música "Feriado na Roça", para mim uma das mais bonitas dele. O mais incrível é que é uma canção, não é um samba.
Cartola conseguiu colocar numa mesma música uma série de sentimentos, sempre com a mesma voz calma. Seguem-se surpresa, felicidade, ansiedade, decepção, tristeza, ódio, insanidade e indiferença, nessa ordem. Tudo isso em breves 2 minutos e 35 segundos. Para ouvirem e constatarem, segue o link abaixo. É só procurar a música Feriado na Roça e clicar para escutar (é a 3ª música da lista).
http://www.radio.uol.com.br/#/artista/cartola/1784
É por músicas como esta que Cartola foi um ser incomparável. Beleza sublime. O resto é cópia, das mal feitas!
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